A mentira oferecida como verdade


Pinocchio, por Carlo Chiostri (1901). Imagem em Domínio Público.

Pinocchio, por Carlo Chiostri (1901). Imagem em Domínio Público.

 

Todos nós já tivemos a experiência de sermos enganados ou de vermos alguém ser enganado. A mentira também não é algo novo na história da humanidade: Aristóteles, no século IV antes de Cristo, já alertava para o perigo de argumentações enganosas empreendidas pelos chamados “sofistas”. O fato é que a mentira está presente na vida humana.

Contudo, a mentira pode tomar proporções que por vezes não imaginamos, ao levar grupos sociais (quando não toda uma sociedade) a acreditarem e defenderem publicamente uma ideia enganosa. Essa ideia enganosa, por sua vez, por estar em praça pública, acaba seduzindo outras pessoas e alcançando novos seguidores, e com isso a mentira se espalha até se tornar uma “verdade” pública ou compartilhada por boa parcela da sociedade.

Um caso recente que vi desse fenômeno foi um slogan feminista em um broche de mochila. A mensagem era a seguinte: “A única obscenidade que conheço é a violência”. O autor ou autora do slogan está chamando a atenção para o fato de que várias feministas, que ultimamente têm protestado nuas em público, estão sendo chamadas de obscenas.

Mas é evidente que para maior parte de nossa cultura protestar nu é ferir o pudor. Além disso, a maior parte de nós, que conhece a palavra “obsceno”, sabe que se trata de algo desse tipo, isto é, que se trata de algo da intimidade de um corpo e não de violência. Sabemos, por experiência, que violência é um crime de homicídio, uma briga que resulta em ferimentos, entre outros, e não ficar nu.

Resultado: o que vimos no slogan é uma clara manipulação de linguagem que estimula a outrem crer que “obscenidade” é sinônimo de “violência” e que, mais do que isso, só existe uma “única” obscenidade, a violência. O “única” no slogan mostra, ademais, o grau de absolutismo da fórmula: só existe uma única obscenidade, todas as outras estão excluídas.

Quem começa a ler esse slogan de forma acrítica, sem prestar atenção em seu sentido, é levado a acreditar que violência não é aquilo que se vê no dia a dia dos noticiários, mas que violência é outra coisa, que violência é obscenidade, como se ficar nu fosse praticamente o mesmo que briga violenta. Tirando os casos psiquiátricos, nada mais longe da realidade.

Outro exemplo interessante é de um problema de energia ocorrido no início deste ano, um apagão, e cujo porta-voz do problema dizia que não chamaria o apagão de apagão, mas de interrupção temporária de energia. Ora, se é apagão, é apagão. Não é preciso falar da mesma realidade com uma expressão mais “soft”. Fale-se o que verdadeiramente é e do modo como as pessoas entendem, sem tergiversar: um apagão. De fato, um apagão é uma interrupção de energia, mas se fala em “apagão” porque tudo fica escuro, apagado.

O fenômeno de manipulação da linguagem já está mais fortemente presente no País nas últimas décadas. Seu objetivo de fundo é esconder a verdade, donde decorrem diversas consequências: manipular para que a imagem não fique feia; manipular para alcançar objetivo político; manipular para demonstrar revolta (mesmo que esta não tenha lógica), manipular com receio da repercussão negativa. No fundo é o esconder-se, ter seus intentos projetáveis, mas de modo que tudo pareça sem manipulação. É uma das facetas do “politicamente correto”.

Parece-me, contudo, diante do quadro apresentado, que o público está cansado das manipulações e jogos de linguagem. O povo tem anseio de saber o que se passa e o que acontece com transparência. Ademais, desses jogos, decorre boa parte das confusões políticas e culturais na cabeça de cidadãos, que ora não sabem em que candidato ou partido confiar, ou não sabem bem qual é o melhor posicionamento diante de um problema social, político ou cultural.

Mas é claro: se as bases de informação e conhecimento estão viciadas com jargões ideológicos despreocupados com a verdade, se as informações estão abrandadas, se a informação está distorcida, então não há conhecimento seguro, mas meias-verdades ou mentira. Conhecimento seguro acerca das coisas é conhecimento verdadeiro e sincero, sem subterfúgios linguísticos. É apresentar as coisas tais como são. Violência é violência, e não ficar nu. Apagão é apagão, pois se ficou no escuro.

Se quisermos prestar um bom serviço à sociedade, não devemos ter medo de falar a verdade, isto é, o que está acontecendo, pois justamente saber o que está acontecendo faz com que tenhamos informação segura para tomar decisões certeiras. De nada adianta eu pensar que violência é obscenidade se violência é outra coisa. Entrar na lógica da linguagem manipulada é entrar em confusões e de confusões, caro leitor, o brasileiro está cansado.

■■ João Toniolo é bacharel, mestre e doutorando em Filosofia e gestor do Núcleo de Filosofia do IFE Campinas (joaotoniolo@ife.org.br).

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 5 de Julho de 2014, Página A2 – Opinião.