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Vida universitária e vida real?

 | 26/08/2016 |

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vida real - toniolo

Imagem: reprodução do artigo no jornal

 

Cansado nesse momento para escrever, mas mesmo assim sem desistência, tento registrar uma experiência de pouco tempo atrás que acho importante para nossos dias, especialmente para aqueles que têm vivência em universidades públicas do País.

Dia desses, estava com um amigo em uma dessas barracas de beira de estrada que vende água de coco, caldo de cana e outras coisas boas, com ambiente familiar e bela mata atrás da barraca e lhe disse algo: “Acho que vou aproveitar melhor este distrito morando aqui perto. O ambiente é mais familiar, a vida é mais normal, há famílias por aqui, há um clima diferente [tudo isso em comparação à residência estudantil e ao ambiente universitário onde vivia]”.

Ele me deu uma resposta de que gostei muito, por ser muito profunda e estar afinadíssima com o que tenho refletido a respeito nesses tempos. Ele, que é brasileiro e já saiu da universidade trabalhando com línguas, respondeu-me em inglês: “This is real life” [Essa é a vida real], ao que eu respondi de pronto: “Exatamente”.

Por que digo isso? Porque no ambiente universitário (especialmente público) se vive numa bolha, onde muitos estudantes ignoram leis, onde se vive num mundo à parte do mundo do trabalho e da vida cotidiana (que forma a maior parte da sociedade), onde se come a R$ 2,00 um prato que no mínimo valeria R$ 5,00 ou mais, onde estudantes fazem muitas coisas que não seriam feitas fora da universidade, enfim, onde muitos universitários estão enredados na chamada “segunda realidade” de que falava o escritor alemão Robert Musil e que o filósofo germano-americano Eric Voegelin a utilizou em sua obra.

“Segunda realidade” refere-se a uma realidade imaginária que não corresponde à realidade concreta, à estrutura da realidade. É uma realidade falsa, com muita imaginação utópica e deturpada acerca da realidade que só é possível na imaginação do sujeito que a carrega e que faz parte de sua visão de mundo e que, portanto, influi em suas ações. Trata-se das ideologias. Estas são daquelas que nos dão respostas prontas e nos fazem viver num mundo à parte. É um sistema de pensamento, uma visão de mundo que faz o sujeito enxergar só segundo as categorias desta ideologia, como o caso da ideologia materialista.

Um exemplo é quando se diz a um materialista que nem todo empreendimento econômico é explorador. Os mais aferrados a esta ideologia dirão que toda atividade econômica é exploradora, embora a teoria da exploração tenha sido refutada há várias décadas por diferentes economistas, como Böhm-Bawerk. Você, por sua parte, mostra casos reais de empresas que tratam bem seus funcionários e lhes pagam bem (nem todas são assim, seu sei), mas mesmo assim ele insiste em levantar uma teoria refutada: tem resposta pronta para qualquer contradito. Eis a ideologia.

Como essa segunda realidade é falsa, ela é incômoda e irritante para quem ama a primeira realidade, a “real life” de que certeiramente falou o amigo. Porque a “segunda realidade” tranca as pessoas dentro de si mesmas, dentro de sistemas, dentro de uma “casa sem janelas” – palavras que o escritor inglês G.K. Chesterton usou ao falar dos materialistas.

Você sair de um ambiente cujo tom é dominado por pessoas que estão enredadas nessa falsidade é um alívio, porque se vai a um ambiente onde as pessoas estão mais na vida real e onde não ficam em elucubrações mentais distantes, impossíveis. A vida real, apesar de suas dificuldades, é bela, é obra da Criação e é verdadeira. Nela você pode respirar e olhar além, sem as correntes dos jargões ideológicos e das idéias agarradas às paixões que sufocam o homem e o fazem justificar até barbaridades tremendas, como a de que os fins justificam os meios.

A vida real, ao contrário das ideologias, está aberta às novidades que a realidade apresenta. Coloca-se humilde a dizer “não sei” quando não se sabe, e a avançar no conhecimento sem fórmulas pré-fabricadas, mas atento ao que está sob seu olhar no mundo real e não apenas no mundo de sua imaginação. Se aceitada com humildade, é justamente um dizer sim à nossa existência neste mundo. Negá-la e não aceitá-la é como estar pelas ruas e acreditar que elas não existem, apesar de se estar pisando em solo quente e estar sentindo o calor do asfalto. — Viva a realidade! Viva a verdade! Sim, vivam elas, que estão quase mortas em diversos ambientes universitários.

■■ João Toniolo é bacharel, mestre e doutorando em Filosofia e gestor do Núcleo de Filosofia do IFE Campinas (joaotoniolo@ife.org.br).

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 25 de fevereiro de 2014, Página A2 – Opinião.

A mentira oferecida como verdade

 | 12/08/2016 |

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Pinocchio, por Carlo Chiostri (1901). Imagem em Domínio Público.

Pinocchio, por Carlo Chiostri (1901). Imagem em Domínio Público.

 

Todos nós já tivemos a experiência de sermos enganados ou de vermos alguém ser enganado. A mentira também não é algo novo na história da humanidade: Aristóteles, no século IV antes de Cristo, já alertava para o perigo de argumentações enganosas empreendidas pelos chamados “sofistas”. O fato é que a mentira está presente na vida humana.

Contudo, a mentira pode tomar proporções que por vezes não imaginamos, ao levar grupos sociais (quando não toda uma sociedade) a acreditarem e defenderem publicamente uma ideia enganosa. Essa ideia enganosa, por sua vez, por estar em praça pública, acaba seduzindo outras pessoas e alcançando novos seguidores, e com isso a mentira se espalha até se tornar uma “verdade” pública ou compartilhada por boa parcela da sociedade.

Um caso recente que vi desse fenômeno foi um slogan feminista em um broche de mochila. A mensagem era a seguinte: “A única obscenidade que conheço é a violência”. O autor ou autora do slogan está chamando a atenção para o fato de que várias feministas, que ultimamente têm protestado nuas em público, estão sendo chamadas de obscenas.

Mas é evidente que para maior parte de nossa cultura protestar nu é ferir o pudor. Além disso, a maior parte de nós, que conhece a palavra “obsceno”, sabe que se trata de algo desse tipo, isto é, que se trata de algo da intimidade de um corpo e não de violência. Sabemos, por experiência, que violência é um crime de homicídio, uma briga que resulta em ferimentos, entre outros, e não ficar nu.

Resultado: o que vimos no slogan é uma clara manipulação de linguagem que estimula a outrem crer que “obscenidade” é sinônimo de “violência” e que, mais do que isso, só existe uma “única” obscenidade, a violência. O “única” no slogan mostra, ademais, o grau de absolutismo da fórmula: só existe uma única obscenidade, todas as outras estão excluídas.

Quem começa a ler esse slogan de forma acrítica, sem prestar atenção em seu sentido, é levado a acreditar que violência não é aquilo que se vê no dia a dia dos noticiários, mas que violência é outra coisa, que violência é obscenidade, como se ficar nu fosse praticamente o mesmo que briga violenta. Tirando os casos psiquiátricos, nada mais longe da realidade.

Outro exemplo interessante é de um problema de energia ocorrido no início deste ano, um apagão, e cujo porta-voz do problema dizia que não chamaria o apagão de apagão, mas de interrupção temporária de energia. Ora, se é apagão, é apagão. Não é preciso falar da mesma realidade com uma expressão mais “soft”. Fale-se o que verdadeiramente é e do modo como as pessoas entendem, sem tergiversar: um apagão. De fato, um apagão é uma interrupção de energia, mas se fala em “apagão” porque tudo fica escuro, apagado.

O fenômeno de manipulação da linguagem já está mais fortemente presente no País nas últimas décadas. Seu objetivo de fundo é esconder a verdade, donde decorrem diversas consequências: manipular para que a imagem não fique feia; manipular para alcançar objetivo político; manipular para demonstrar revolta (mesmo que esta não tenha lógica), manipular com receio da repercussão negativa. No fundo é o esconder-se, ter seus intentos projetáveis, mas de modo que tudo pareça sem manipulação. É uma das facetas do “politicamente correto”.

Parece-me, contudo, diante do quadro apresentado, que o público está cansado das manipulações e jogos de linguagem. O povo tem anseio de saber o que se passa e o que acontece com transparência. Ademais, desses jogos, decorre boa parte das confusões políticas e culturais na cabeça de cidadãos, que ora não sabem em que candidato ou partido confiar, ou não sabem bem qual é o melhor posicionamento diante de um problema social, político ou cultural.

Mas é claro: se as bases de informação e conhecimento estão viciadas com jargões ideológicos despreocupados com a verdade, se as informações estão abrandadas, se a informação está distorcida, então não há conhecimento seguro, mas meias-verdades ou mentira. Conhecimento seguro acerca das coisas é conhecimento verdadeiro e sincero, sem subterfúgios linguísticos. É apresentar as coisas tais como são. Violência é violência, e não ficar nu. Apagão é apagão, pois se ficou no escuro.

Se quisermos prestar um bom serviço à sociedade, não devemos ter medo de falar a verdade, isto é, o que está acontecendo, pois justamente saber o que está acontecendo faz com que tenhamos informação segura para tomar decisões certeiras. De nada adianta eu pensar que violência é obscenidade se violência é outra coisa. Entrar na lógica da linguagem manipulada é entrar em confusões e de confusões, caro leitor, o brasileiro está cansado.

■■ João Toniolo é bacharel, mestre e doutorando em Filosofia e gestor do Núcleo de Filosofia do IFE Campinas (joaotoniolo@ife.org.br).

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 5 de Julho de 2014, Página A2 – Opinião.

Apresentação Núcleo de Filosofia

 | 21/04/2014 |

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A Filosofia nasceu na Grécia Antiga entre os séculos VI e VII a.C. Buscava o saber, a realidade do mundo e da vida. De lá para cá a História da Filosofia conheceu muitos filósofos, desde seus grandes pais Sócrates, Platão e Aristóteles, passando por Santo Agostinho e Tomás de Aquino, até Immanuel Kant, Henri Bergson e outros.

Contudo, em nosso tempo, muito se perdeu daquilo que a Filosofia objetivava no início, isto é, o saber, a busca pela verdade, pela sabedoria, limitando-se muitas vezes a resenhar ou interpretar filósofos do passado sem um comprometimento com a realidade do passado e dos dias de hoje, fato que levou e leva muitas pessoas a olharem a Filosofia como não ligada à nossa vida, como se fosse algo à parte e sem utilidade. Por outro lado, houve também filósofos contemporâneos que não desistiram dessa busca e, pelo contrário, empreenderam-na de modo exemplar. O ideal pela busca do saber e da verdade não foi perdido com o tempo.

Nosso Núcleo de Filosofia objetiva esse ideal, sem ignorar a tradição filosófica, mas ao mesmo tempo sem um apego a filósofos do presente que desconectam a filosofia da vida real. Afinal, não faz sentido estudarmos se não tivermos como objetivo conhecer melhor o mundo e o que nele acontece. Do contrário, ficaremos em especulações descoladas da realidade.