Crianças, crimes e família

 | 04/08/2015 |

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Imagem: Projéteis de uma arma de brinquedo, foto de Joho345 (Wikimedia Commons).

 

Nos últimos meses, duas coisas me chamaram a atenção. A primeira delas foi um anúncio governamental para o chamado Dia do Desarmamento Infantil, que é lembrado em 15 de abril. A outra foi uma notícia que saiu em 5 de Junho de 2010 no O Globo, intitulada “Dos 23 alunos que estudaram juntos há mais de 30 anos numa escola pública em Caxias, apenas o…” (sim, o título termina em mistério), mas que chegou às minhas mãos apenas em 2015. Parecem não ter relação, mas vejamos como convergem.

No que tange à primeira, descobri que, além do Dia do Desarmamento Infantil, há também campanhas para tal desarmamento, semelhante àquelas para armas de fogo reais. Após descobrir essas coisas, lembrei-me de minha infância e comecei a me perguntar o porquê de tal dia e de tais campanhas. Pois brincávamos na rua e na casa de amigos com armas de brinquedo, porém, nenhum de nós se tornou criminoso por ter brincado com tais armas. Ficava a pergunta: qual a relação entre coibir armas de brinquedo para crianças sendo que, por experiência, vejo que ter armas de brinquedo não implica necessariamente em pessoa criminosa ou violenta?

Claro, havia também as armas de brinquedo que soltavam bolinhas de plástico. Estas de fato podiam machucar e criar problema. Tenho ciência também que o Artigo 26 do Estatuto do Desarmamento reza que estão vedadas as armas de brinquedo que podem ser confundidas com as de fogo. Mas o fato intrigante é que um dos principais argumentos das campanhas que vi é que, diminuindo armas de brinquedo, diminui-se também a criminalidade. De fato, o uso de armas de fogo está relacionado à violência, mas também à defesa (não fosse assim, não haveria deputados, juízes, presidentes etc. escoltados com guarda armada). Mas, o fato de brincar com armas de brinquedo estar ligado à violência no futuro, isto não é tão simples como parece. Se diminuir armas de brinquedo (diminuindo assim seu uso) é diminuir a violência, então o uso de armas de brinquedo gera violência. Ora, pelo menos no caso concreto que citei acima essa regra não se aplica. O leitor também pode fazer um exercício de memória e ver se sua experiência na infância é semelhante ou não.

Por outro lado, lembrei-me também de pessoas que se envolveram com o crime, não amigas, mas de casos que vêm a púbico. Nesse sentido, entre os que não foram para o mundo do crime e os que foram, o que notei foi que o fator preponderante entre armas de brinquedo e criminalidade não é essa simples relação de implicação, mas a família. Explico. De meus amigos que brincaram com armas de brinquedo e que não entraram para o crime, suas famílias eram relativamente estáveis ou bem estruturadas, alicerçadas em bons valores e boa educação (educação éticomoral, cabe salientar, pois se fosse apenas escolar não teríamos políticos corruptos com diploma universitário). Dos casos de pessoas que foram para a criminalidade, quando os dados familiares eram públicos, percebi que provinham de famílias litigiosas, desequilibradas, liberais (que não põem limites aos filhos) etc.

Conforme matéria supracitada, “Dos 23 alunos que estudaram juntos há mais de 30 anos (…)”, é relatado que, de 23 alunos de uma comunidade carente de Duque de Caxias (RJ), o único que entrou para o crime foi um dos mais famosos réus brasileiros. Os outros, embora tivessem meios para entrar no crime, tornaram-se pessoas empenhando papéis importantes na sociedade, como o de motorista, professor, mecânico, entre outros. Como diz o autor da matéria, Antônio Wernek, basta acompanhar a trajetória dos alunos “para derrubar a premissa de que o caminho do crime é a única opção para quem nasce pobre e favelado”. Eu acrescentaria: não é uma simples arma de brinquedo que vai lhe fazer um criminoso. Em linhas gerais – agora juntando as duas coisas que me chamaram a atenção – não são tanto os meios materiais que fazem de alguém um criminoso ou não, mas, mais os valores com os quais foi educado.

Uma das coisas que um dos entrevistados na referida matéria disse, Ivan Guimarães, foi o seguinte: “Não é porque você nasce e mora numa comunidade carente que você vai virar bandido. O jovem se torna um criminoso quando ele não tem apoio da família.” Eis algo que parece estar sendo negligenciado na questão criminal com relação às crianças: a relação entre o tipo de educação familiar e a criminalidade.

■■ João Toniolo é doutorando em Filosofia e gestor do Núcleo de Filosofia do IFE Campinas (joaotoniolo@ife.org.br)

Artigo originalmente publicado no jornal Correio Popular, 29 de Julho de 2015, Página A2 – Opinião.