Pais e filhos

 | 10/08/2016 |

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Chego ao décimo-quarto dia dos pais em que levo as honras para casa. Seria uma espécie de “bodas de cristal”, mas, para mim, toda boda é sempre boda de champagne. Prefiro a minha parte em líquido. Sem dúvida, é uma fase vital para se fazer uma saudável pausa no trajeto, olhar para trás e, depois, retomar a caminhada.

Contemplo meu rastro existencial em retrospectiva e vejo, em meus filhos e filhas, muitas histórias. Aquelas que me contaram, as que vivi, li, sonhei, inventei e escrevi. Em suma, histórias para todos os sentidos e alcances. As mais pretéritas são do Pedro, o primeiro e, as mais recentes, da Letizia, a caçula.

Muitas dessas histórias, pela minha voz, ganharam vida na letra morta de minhas crônicas para o jornal em que escrevo desde que o mais velho nasceu. Ali mesmo onde dou vazão ao homem que está no coração do juiz que, com o passar dos anos de paternidade, assiste à sua toga sendo dilatada pelo coração dos filhos. O tempo, nessas crônicas, ao invés de apagar aquelas histórias, revitaliza-as e faz com que sirvam, muitas vezes, como lições de sabedoria.

A existência de cada filho é um mistério que permite inventar histórias e moldá-las de tal maneira, fazendo-se o uso das palavras para que pareçam verdadeiras e cheguem aos leitores e os façam chorar e rir. Sofrer desfrutando e desfrutar sofrendo, como se fossem os espectadores da grande ópera de vida daquelas histórias.

Escrever sobre as histórias dos filhos ainda parece ser um processo enigmático, onde as raízes afundam-se no mais profundo do inconsciente. Por que existem certas experiências familiares — ouvidas ou vividas — que, sem mais, sugerem-me uma história, algo que, pouco a pouco, vai se tornando urgente e peremptório?

Nunca sei por que existem algumas vivências dos filhos que se tornam exigências para fantasiar uma história, que me provocam um desassossego e uma ansiedade que são aplacados quando ela vai surgindo, sempre com surpresas e derivas imprevisíveis, como se eles, meus filhos, os protagonistas – nominados ou ocultos – de minhas crônicas, fossem apenas intermediários, numa espécie de leva-e-traz de uma fantasia que vem de alguma região ignota do espírito e, em seguida, emancipa-se da carne e do osso de cada um deles e vai viver sua própria vida nas minhas linhas. Linhas de um contador de histórias dos filhos. E, quem sabe, um dia, dos filhos dos meus filhos.

Os filhos chegam ao livro da vida com um introito de amor incondicional. Nos primeiros capítulos, dependem de nosso amor e dos cuidados que temos. Nos capítulos seguintes, retribuem com gestos que enternecem. Lá pela metade corrida do livro, as páginas ficam amareladas, porque os anos passam, os filhos crescem e outras histórias tomam forma. Histórias de escolhas: de seus próprios caminhos, amores e vocações.

Escrever sobre os filhos é uma atividade em que se aprende muito sobre si mesmo. “Escrever é uma maneira de viver”, disse Flaubert. Com razão. Não se escreve para viver, embora muitos ganhem a vida escrevendo, o que não é lá minha condição. No meu caso, vive-se para escrever, porque o escritor de vocação continuará escrevendo. Nem que seja para si mesmo ou para os filhos, tomados como ouvintes de suas próprias histórias de vida.

Mas não sem, primeiramente, inspirar-se na história de cada um deles, porque não conheço nenhum pai-escritor que não tenha sido, antes, um grande pai-leitor: do livro aberto, composto por parágrafos, linhas, entrelinhas e rodapés da história de vida de cada um de meus filhos.

Por fim, para minha esposa que, nesse livro aberto, compõe, comigo, a referência bibliográfica, deixo uma dedicatória curta e fecunda: obrigado por me amar e concretizar esse amor na pessoa de cada um dos protagonistas das histórias daqui de casa.

André Gonçalves Fernandes é juiz de direito, doutorando em Filosofia e História da Educação, professor, pesquisador, coordenador acadêmico do IFE e membro da Academia Campinense de Letras (fernandes.agf@hotmail.com)