Tal e qual

 | 12/08/2015 |

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Diz um amigo que o “melhor é deixar a vida nos levar”. De fato, a sucessão temporal é inexorável. Mas isso não pode servir de entorpecimento existencial. Não se vive sem reflexão, por mais elementar que seja. Enquanto se pensa, examina-se, ainda que se passe uma vida inteira sem se atentar para isso.

Em tempos de “metas abertas”, a meta de quem resolve se esforçar a sair um pouco do mundo da correria do cotidiano poderia ser a de alcançar alguma intuição acerca do sentido do mundo e de nossa existência. E, depois, “dobrar” a meta: superar o primeiro passo, a intuição, rumo ao segundo, o conhecimento mais profundo daquelas dimensões de sentido.

Ao contrário da voz corrente, a autêntica riqueza do homem não está em satisfazer suas necessidades mais elementares, mas em saber “ver o essencial no invisível”. Sabedoria de pequeno príncipe. Nesse sentido, a reflexão não é uma tarefa reservada para especialistas, como os filósofos profissionais. Muitos bons insights provêm de filósofos amadores. Pode se dizer que a reflexão é uma tarefa e um desafio para toda pessoa. Deveria ser a coisa mais trivial do mundo começar uma conversa reflexiva não só na universidade, mas também nas ruas, nos cafés e bares.

Contudo, nesse momento, damo-nos conta de algo observado em quase todas as épocas e todas as sociedades: as pessoas que se dão ao “trabalho” de refletir, sejam filósofos profissionais ou amadores, são uns marginalizados, desde o comediante Aristófanes que, no século IV a. C., já satirizava mordazmente as ideias de Sócrates. Quem sabe ele fosse a versão arcaica do aposentado David Letterman, mas sem um Paul Shaffer para ficar comentando e rindo das piadas…

Hoje, no mundo do dinheiro e do sucesso a todo custo, é bem possível que, além das piadas, uma postura reflexiva inspire algum sentimento de pena. Por ser algo que o dinheiro não compra, pode ser visto como uma espécie de luxo intelectual, como já pude ouvir de uma distinta senhora com seus óculos escuros, motorista e bolsa francesa. E perfeitamente tolerável, pois, emendou ela, “enquanto uns pensam, outros trabalham”. Como se pensar não desse trabalho…

Sem dúvida, quem se habitua a refletir, se não toma um certo cuidado, deixa de ter os pés sobre a terra, já que algum distanciamento da realidade é necessário para bem analisar as questões vitais que nos cerca. E – o pior – sem estar ligado de alguma maneira com a realidade, completamente nas nuvens, sugerem-se respostas altamente sistematizadas e sofisticadas que, por estarem completamente desconectadas de nossa realidade, são castelos de areia que mais cedo ou mais tarde irão ruir. Assim foram os sistemas filosóficos que sustentaram os totalitarismos do século XX.

Esse é o perigo maior na tarefa reflexiva. O pensador desliga-se por completo do mundo cotidiano e mira o céu. Mas ninguém pode viver assim perpetuamente. Não somos espíritos puros. Temos um corpo bem material que necessita de comida, bebida e descanso. Precisamos de uma casa, de uma família, de um emprego e de convívio social. Se estou com dor de cabeça, não quero refletir sobre o mal da doença ou os fins do sofrimento. Quero imediatamente um analgésico e um pouco de repouso em silêncio.

Também é certo que, sem uma base material que assegure nossa existência, ninguém é capaz de filosofar. Não se reflete de barriga vazia, sedento ou sob os efeitos de uma enfermidade grave. Daí entende-se perfeitamente que Aristóteles tinha razão: refletir com o olhar no céu, mas com os pés no chão. As duas realidades devem agir em conjunto e não de costas uma para a outra.

Conta Platão que Tales de Mileto passeava contemplando o firmamento quando caiu num poço. Uma empregada, testemunha ocular do fato, caiu na gargalhada. Se alguém que tome a reflexão a sério pode ser motivo de risada, por outro lado, por viver num mundo em que os outros orientam-se exclusivamente por interesses pragmáticos, como o dinheiro, o poder ou o sucesso, ele não se dedica a algo que seja dotado de uma “utilidade intrínseca” e, logo, tem o espírito muito mais livre daqueles se guiam por aquelas ambições.

A filosofia não se presta a utilitarismos de vitrine. Recusa-se a objetivos que estão fora dela mesma. Filosofia não é sabedoria de funcionário, mas sabedoria de cavaleiro, com já disse o Cardeal Newman. Não é sabedoria útil. É sabedoria livre. Se for para ter alguma “utilidade”, mais do que buscar respostas para as questões vitais, uma vida reflexiva presta-se a conservar sempre viva uma pergunta: aquela que se refere ao fundamento último de toda existência humana. Mesmo que, para afirmar isso, tenha que provocar algumas risadas. Como faz o provérbio italiano: filosofia é uma ciência tal que, sem a qual, o mundo continuaria a ser tal e qual. Com respeito à divergência, é o que penso.

André Gonçalves Fernandes é juiz de direito, doutorando em Filosofia e História da Educação, pesquisador, professor, coordenador do IFE Campinas e membro da Academia Campinense de Letras (fernandes.agf@hotmail.com)

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 12/8/2015, Página A-2, Opinião